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Histórias de fraudes em casinos

Fraudes em Casinos – Histórias de quem tenta fintar o próprio jogo

Designados de jogos de azar, os jogos de casino ditam a sentença de quem arrisca apostar em duas direções normalmente contrárias. Ganhar ou perder faz parte do jogo já diz o velho ditado, mas há quem faça tudo para não fracassar, nem que isso exija o recurso a métodos menos lícitos no que toca a regras e ética dos jogos de azar. “Pensar em enganar pelo menos uma vez o sistema do jogo”, dizem os psicólogos, faz parte da natureza humana de qualquer jogador e ao longo dos anos temos assistido a diversos cenários de jogadores que conseguiram ter sorte, recorrendo a técnicas para fintar o próprio azar. Este artigo é mesmo sobre isso, as fraudes em casinos.

Os golpes e as fraudes nos casinos existem desde sempre não só para aqueles que sonham com prémios altos, mas também para quem gosta de arriscar e da adrenalina associada ao risco.
E se antes da explosão da indústria no jogo, que só nos Estados Unidos arrecada $34 USD mil milhõess por ano, roubar era uma questão de inteligência, com o aumento exponencial das apostas, as fraudes nos casinos, acabaram por se transformar numa verdadeira ciência com direito a conceitos de física, equipamentos de última geração e teorias matemáticas complexas.
Cometem-se fraudes e golpes em casinos dos mais variados tipos, a partir de qualquer tipo de ideia que resulta muitas vezes em planos altamente criativos. Desenganem-se aqueles que pensam que as fraudes nos casinos só acontecem nos filmes. Há golpistas de carne e osso praticam fraudes em casinos quer pela ganância de ganhar um prémio alto, quer pelo gosto em correr o risco de estar a fazer algo ilícito.

O que são fraudes em casinos?

Fraudes em casinos refere-se a um conjunto de ações de jogadores, ou do próprio casino, ilícitas e proibidas pelas autoridades regionais de controlo do jogo.

Exemplos de fraudes em casinos:

  • Recorrer ao uso de aparelhos suspeitos, interferindo nos mecanismos dos jogos;
  • Fraude com as fichas ou deturpação dos jogo;
  • Trocar fichas e marcar cartas;
  • Recorrer ao uso de aparelhos tecnológicos para descobrir o valor das cartas de outros jogadores (exemplo: transmissores de rádio, micro câmaras e lentes especiais).

O recurso à tecnologia de ponta também já faz parte desta lista, e os golpistas high tech já descobriram, inclusivamente, uma forma de levar vantagem no poker, que é um dos jogos mais complexos (tem mais de 2,5 milhões de combinações possíveis de cartas e o bluff, um elemento impossível de calcular). A tática é banal à primeira vista e consiste em marcar as cartas, contudo recorrendo à alta tecnologia. Enquanto os velhos batoteiros do poker usavam unhas e anéis, esta geração de new gamers usa uma tinta invisível, que só pode ser vista usando óculos, lentes de contato ou câmaras de vídeo especiais. Um kit básico destes, que inclui tinta suficiente para marcar 40 baralhos e um par de óculos especiais, pode-se encontrar à venda por $300.

Estando na vanguarda das técnicas de batota, os casinos por seu turno, e enquanto vítimas constantes de fraudes, tentam adotar mecanismos para um controle de fraude mais apertado, investindo recursos valiosos na tentativa de evitar os golpes de que são visados e fazendo tudo para identificar os golpistas. No geral os casinos têm conseguido detetar a maior parte dos casos, porém não todos, e claro que os que conseguem levar a fraude até ao fim, são aqueles jogadores de que nunca iremos ouvir falar. Afinal, o segredo é a alma da fraude. Uma visita até ao historial de golpes e fraudes em casinos leva-nos a identificar alguns mitos urbanos associados a burlões de renome ao longo dos tempos. Vamos conhecer as histórias de:

  • Edward O. Thorp e os alunos do MIT – As lendas do blackjack
  • Tommy G. Carmichael – O maior burlão de slot machines de sempre
  • Richard Marcus – De dealer a burlão
  • Dominic LoRiggio – O “Dominador” dos dados
  • Gonzalo Garcia-Pelayo  – É possível prever o imprevisível.

Edward O. Thorp e os alunos do MIT – As lendas do Blackjack

Edward O. Thorp é um professor de matemática americano a quem foi atribuída a invenção do método moderno de contagem de cartas, que já deu a ganhar enormes quantias aos profissionais de blackjack um pouco por todo o mundo.
Decorria o ano de 1961, quando este professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), decidiu estudar o jogo de cartas blackjack.
A cada rodada os jogadores de blackjack mostram as suas cartas e ao memorizá-las, é possível deduzir as que estão por vir. E foi precisamente aqui que Thorp viu a oportunidade de descodificar a lógica do blackjack.
E de que forma é que o fez? Criando um sistema de probabilidades, que testou num supercomputador da IBM, e também na prática, visitando mais de 80 casinos na região de Las Vegas. Toda esta pesquisa e experiência levou-o a uma descoberta fantástica: quanto mais cartas altas restarem no baralho, maior era a chance do jogador ganhar. Tendo isto em consideração, realizando a aposta na altura certa, seria possível levar uma vantagem de até 3,29% sobre o dealer.
E se a vantagem de 3,29% sobre o dealer passasse para 40%? Foi o que um grupo de alunos de matemática do MIT prometeu com uma nova versão deste golpe. Desta vez, a tática era feita em grupo, e com teorias matemáticas ainda mais sofisticadas.
Passava-se mais ou menos assim: um grupo de pessoas que entrava nos casinos de forma disfarçada e separada, como se não se conhecessem. Um deles dirigia-se à mesa e começava a jogar com apostas baixas e memorizava a sequência de cartas que ia aparecendo na mesa. Quando achava que o momento era propício para apostar, fazia um gesto banal, como por exemplo coçar a orelha, a outra pessoa do grupo. Nesta altura um segundo elemento entrava em ação com a função de apostar alto para ganhar o máximo em cima do casino. Consta-se que esta trupe conseguia lucrar até US$ 400 mil a cada fim-de-semana, o que acabou obviamente por despertar a atenção dos casinos.
Na época era tudo calculado de cabeça, o que não acontece agora. Graças a um computador portátil, as contas necessárias para realizar este golpe são feitas muito mais rapidamente.

Tommy G. Carmichael – O maior burlão de slot machines de sempre

As aventuras de Tommy Glenn Carmichael enquanto burlão de casinos começaram nos anos 60 e duraram mais de quatro décadas. Carmichael passou de gerente de uma loja de reparação de televisões a burlão, ganhando quantias consideráveis em Las Vegas através de esquemas em slot machines.
Em 1985 foi preso pela primeira vez tendo sido condenado a cinco anos de prisão. Enquanto lá esteve traçou um plano para continuar as fraudes em casinos, após a sua libertação. Assim Carmichael desenvolveu a “pata do macaco”, uma nova ferramenta que lhe permitia alterar e continuar a piratear slot machines.
À medida que a tecnologia das slots evoluiu, os truques de Carmichael também se foram tornando cada vez mais sofisticados, e em 1991 inventou outro dispositivo, a ”varinha da luz” que funcionava nas máquinas de tecnologia mais recente na altura, do mesmo modo que funcionava nas suas antecessoras. Foi aí que Carmichael começou a vender este dispositivo a outros burlões, tendo ajudado alguns deles a arrecadar quantias na casa dos 10.000 dólares por dia.
Carmichael continuou a sua saga das burlas, desenvolvendo esquemas de fraudes de casinos em cruzeiros, e em 1996 foi novamente preso e acusado de posse de um dispositivo de fraude de fabrico manual, queixa que mais tarde viria a ser retirada.
Atualmente Carmichael está proibido de jogar em casinos, mas ironicamente, colabora com casinos na produção de mecanismos antifraudes.

Richard Marcus – De dealer a burlão

Após tentar ganhar a vida de forma legal enquanto jogador, Richard Marcus viu-se a viver na rua e arranjou emprego como dealer de blackjack e baccarat num casino. Este trabalho acabou por lhe dar uma outra perspetiva da realidade do jogo, permitindo-lhe conhecer os dois lados da operação dos casinos.
Este fato foi suficiente para que rapidamente descobrisse uma forma de enganar os casinos, forma essa que lhe permitiu ganhar milhões de dólares ao longo da sua carreira.
O esquema de Marcus era bastante simples: numa aposta simples, colocava duas fichas vermelhas de 5 dólares por cima de uma ficha castanhas de 500 dólares. As fichas eram colocadas de modo a que, aos olhos do dealer, parecesse ser apenas uma aposta de 15 dólares com 3 fichas vermelhas. Quando ganhava a aposta, Marcus informava o dealer da quantia apostada, amealhando assim 1.000 dólares. Quando perdia, Marcus aproveitava um momento de menor atenção do dealer e trocava a ficha de 500 dólares por outra ficha de 5.
Este golpe simples funcionou durante anos até Marcus ser apanhado e acusado, e posteriormente banido dos casinos. Porém isto não o fez parar, e Marcus ainda hoje continua a ser o mentor de outros burlões, com um site e um blog online e já com e dois livros publicados.

Dominic LoRiggio – O “Dominador” dos dados

A par dos génios do MIT, Dominic LoRiggio, conhecido por “Dominador”, também tentou levar vantagem no jogo através de fraudes em casinos. Dono de uma pequena empresa de softwares, LoRiggio frequentava casinos de Atlantic City aos fins-de-semana para jogar blackjack.
Um dia, enquanto jogava na mesa dos dados, percebeu que nem todas as pessoas lançavam os dados da mesma maneira. Assim, e por curiosidade, começou um curso de US$500 ministrado por Chris Paulick, engenheiro que havia estudado a física desta curiosa ação.
Aqui acabou por concluir que o lançamento dos dados realmente guardava alguma ciência por trás e treinou, durante meses a fio, aumentando significativamente as hipóteses de vitória, ao ponto de reverter a vantagem do casino no jogo de dados.
Como o próprio Dominic afirma: “Em qualquer desporto, controlar os dados é uma combinação de técnica e de disciplina mental. Qualquer pessoa conseguir ser boa o suficiente”.
A técnica consiste em posicionar os dados antes de os atirar e fazer o lançamento num ângulo definido. Depois de anos praticando, LoRiggio aprendeu a dominar o “tiro controlado”, uma técnica do jogo de dados que permite obter os lançamentos necessários para ganhar, tornando-se assim um mestre nas mesas de dados e blackjack.
Este método envolve o posicionamento dos dados de uma certa maneira, pegar-lhes de uma forma precisa, lançá-los de um jeito a que se mantenham juntos no ar, de modo a que caiam o mais levemente possível sobre a mesa.
Ainda hoje, muitos pensam ser impossível controlar um dado, quanto mais dois, mas LoRiggio afirma ser capaz de o fazer simplesmente através da física.

Gonzalo Garcia-Pelayo  – É possível prever o imprevisível

Pode parecer difícil de acreditar, mas não faltam exemplos que comprovam a eficácia da física newtoniana nos casinos, inclusive num dos jogos mais imprevisíveis: a roleta.
Quem se lembra daquelas equações que se aprende na escola, que usam a posição, a velocidade e a aceleração de um corpo para calcular onde ele vai estar daqui a um determinado tempo? Pois é. Aplicando uma versão um pouco mais complexa dessa fórmula à roleta, é possível estimar em que número a bolinha vai parar! Ou melhor: existe um computador portátil, que custa cerca de 7.500 euros, que se encarrega dessa tarefa, e calcula automaticamente o destino vencedor da bolinha da roleta. Incrível, não é?
Nos anos 90, Gonzalo Garcia-Pelayo pôs em prática um método de aposta que lhe permitiu levar vantagem sobre o casino e ganhar milhões de euros.
Com a ajuda do filho, levou a cabo um método que consistia em recolher o máximo de informações junto das mesas de roleta, nos diferentes casinos.
A seguir, criou um programa informático para classificar os números que saíam com maior frequência e identificar as rodas viciadas. Este matemático espanhol estudou as rodas das roletas no Casino Gran Madrid procurando imperfeições, e traçou uma estratégia tendo em conta as suas descobertas.
O seu empenho minucioso provocou um lucro de 1,5 milhões de euros obtidos em roletas em cassinos de Madrid, Barcelona, Ilhas Canárias e, Amsterdão.
Apesar de ter sido expulso do casino de Madrid onde chegou a ganhar num único dia 600.000€, Gonzalo nunca foi condenado por fraude. Depois de ter sido banido dos casinos, chegou mesmo a abrir um processo em tribunal e ganhou. O Supremo Tribunal de Espanha declarou que os seus métodos eram “corretos” e “ingénuos”.

Como se pode ver quando falamos de fraudes em casinos, ainda há métodos que podem ser vistos ou considerados como corretos, como no caso de Pelayo, e nem todos os grandes burlões têm direito a condenações fortes ou penas de prisão.

No entanto, apesar de serem consideradas legítimas, os casinos podem, em quase todas as jurisdições, banir o acesso a clientes que suspeitem que estejam a fazer uso destes métodos modernos de batota. As fraudes em casinos acabam por ser variáveis por vezes difíceis de controlar em todas as frentes, mas os casinos da atualidade estão cada vez mais munidos de métodos para identificar pequenos e grandes burlões. Da próxima vez que for jogar lembre-se que a sorte ou o azar são apenas uma parte da equação do resultado final que levar consigo, mas lembre-se também que o crime nem sempre compensa!

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